
Para se entender a cobertura jornalística do fato policial e sua influência na formação da opinião pública e criação de mitos e estereótipos, se faz necessário conhecer as raízes do jornalismo, que seja de forma superficial, para nortear o que será discutido e demonstrado.
Remete-nos a historia que, durante um bom tempo (em sua fase inicial), o jornalismo político e literário foi predominante. Nessa fase, tinha a bandeira de buscar a conscientização das questões políticas e sociais de sua época, e apenas em segundo plano a intenção de obter lucros econômicos, sendo os veículos financiados por partidos políticos, época em que o jornalismo literário era forma de expressão de idéias revolucionárias e de transformação social (Traquina, 2004).
No início do séc. XX, houve uma mudança na forma de aceitação do público em relação às notícias impressas, o jornal passou a ser mais barato, facilitando o acesso das camadas menos elitizadas da sociedade, mudando seu formato de disseminação da notícia pela notícia, ou seja o fato divorciado da opinião. Por ter como objetivo o lucro, os proprietários de jornais, comandam as linhas editoriais na intenção de agradar a massa consumidora, dando início à alienação cultural. A propaganda e as matérias que tivessem maior apelo sentimental e emocional, passaram a ter destaques visando o lucro de suas tiragens. Surge com essas mudanças, a figura do jornalista profissional que, apesar de tentar e dizer-se independente, com opiniões, sempre estariam ligadas aos seus patrões, criando-se uma dependência econômica que teria como vítima a informação pobre, pouco expressiva e fabricante de dependentes inconscientes,enfatizando o fato, ficando as opiniões em segundo plano. É daí que surge o seu novo paradigma, “o jornalismo como informação e não como propaganda, isto é, um jornalismo que privilegia os fatos e não a opinião” (Traquina,2004, p. 36).
Uma característica desse período é a criação de certo consenso organizacional e, por vezes, editorial, dentro das redações, em relação aos chamados valores-notícia, ou critérios de noticiabilidade. Em princípio,os critérios substantivos para a divulgação da notícia seriam dois: a importância e o interesse da notícia. A importância seria ligada ao caráter de interesse público da notícia e o interesse, ao de suprir as exigências dos destinatários das notícias.
Entretanto, o caráter comercial da informação é preponderante no que se refere aos veículos de comunicação brasileiros. Ao optar entre os valores-notícia interesse (do público) e importância, aquele se sobrepõe, abrindo espaço na divulgação da informação para interesses individuais, e, conseqüentemente,para o sensacionalismo. Opta-se, então, pela confusão entre informação e entretenimento, ressaltando-se os aspectos engraçados, dramáticos e de aparente conflito, para então divertir. Na prática, percebe-se que “quanto mais negativo, nas suas conseqüências é um acontecimento, mais probabilidades tem de se transformar em notícia” (Wolf, 1993, p. 183).
Tendo como referencia o que Wolf expõe, abre-se o espaço para as notícias sobre violência e ações policiais, que é de grande interesse do público de classe média e baixa, sequiosos de emoções e de espelhos sociais. Tornando-se consumidores naturais da indústria do ”jornalismo sangrento”. Assim sendo, o jornalismo escolhe qual fato irá interessar ao seu público e de qual ângulo ele irá explorá-lo. Quando se refere a notícias sobre crimes, o jornalismo tende a ser sensacionalista. Como percebe Lage (1979, p. 24)
O sensacionalismo permite que se mantenha um elevado índice de interesse popular (o que é conveniente para o veículo, na época de competição por leitores e de maximalização publicitária), refletindo, na divulgação de crimes e grandes passionalismos, uma realidade violenta muito próxima de imprecisos sentimentos do leitor; oferece-lhe, em lugar da consciência, uma representação de consciência (...).Quanto aos problemas, eles se esvaziam no sentimentalismo ou se disfarçam na manipulação da simplificação e do inimigo único.
Seja no rádio, na TV e na mídia escrita, reportagens policiais caíram no gosto popular. Porém, esse tipo de reportagem, quando não utilizado como denúncia social, explora situações dramáticas e humilha minorias. Relata Jaqueline (2008)
Figurando como elemento de ligação presente na maioria dos fatos mencionados (crimes e violência), a figura do Agente de Segurança Pública aparece como mais um personagem na mitificação da notícia, na criação dos estereótipos, na personificação do estigma social. Ele carrega todos os significados e significantes necessários a construção do modelo de vítima e algoz, herói e bandido, anjo e demônio. Ambíguos, que podem ser usados de acordo com a percepção do momento, com a necessidade consumista do mercado.
Com base em pesquisa realizada pela SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública), pode-se demonstrar como se dá o processo de construção da imagem do policial mediante ao tratamento do fato pela mídia escrita.
O que percebe-se durante o estudo do material, é que a pesquisa analisou a mídia escrita e como a mesma relata os fatos de ocorrências policiais e como o produto de sua percepção do fato influencia o público consumidor. Destacam-se:
1. Análise quantitativa e qualitativa da imagem do policial na imprensa escrita;
2. Destaca aspectos positivos e negativos do que é noticiado nos jornais (84% caráter factual, 14% negativo, 1,6% positivo);
3. Clara tendência em destacar os aspectos negativos;
4. Os aspectos positivos destacados pelos jornais não fazem referências as políticas de segurança pública, de forma a dar ao leitor a oportunidade de formar opiniões, são passados apenas aspectos positivos fabricados pelas corporações (orientações da polícia sobre segurança, representação de ações cooperativas das polícias, reorganização da instituição policial, investimento em qualificação e capacitação).
5. Os aspectos negativos são:
1 Envolvimento da polícia com o narcotráfico.
2 Falta de policiamento/falta de segurança
3 Homicídios cometidos por policiais
4 Maus tratos cometidos contra suspeito-criminosos ou qualquer pessoa
5 Corrupção policial
6 Efetivo insuficiente
7 Violência (abuso de poder, abordagem violenta, discriminação)
8 Despreparo profissional
9 Mau funcionamento / mau atendimento
10 Desmoralização da corporação
Para Rebelo (2000), o papel da mídia impressa se realiza em dois planos:
1. Informativo: procura narrar à notícia do dia, cumprindo sua função (notícia – quê, o quê, onde, quando, por que, como).
2. Discursivo: se configura num sistema de valores em consonância com “o que se fala”, prevalecendo o discurso “de quem se fala”, “por que se fala”, “como se fala”.
A importância do estudo da mídia se fundamenta no fato de que este meio faz parte de um sistema que se articula à lógica da vida social, ocupando lugar privilegiado de produção e reprodução do real, ou dando ilusão à realidade. O meio de comunicação tem forte influência cultural.
É importante abordar as fontes institucionais, uma delas são a polícia e demais instituições sócias, que em conjunto com os órgãos de comunicação social estabelecem relações estreitas e particulares.
O processo de cobertura e circulação da notícia não é simples e não se limita a uma transmissão, ela pode vir influenciada, do próprio processo de geração.
A maioria das matérias faz parte das seções do cotidiano e questões mais aprofundadas sobre as ações policiais são tratadas por jornalistas especializados e em seções especiais. Outra parte dessa cobertura dedica-se a um tipo de jornalismo sensacionalista (como foi referido anteriormente), espetacular cujas características são a exposição da violência, da morte, do acidente, do bizarro do comportamento do homem. (Angrimani, 1995; Njaine & Minayo, 2002).
O enfoque na atuação da polícia ainda ocupa um espaço considerável dos jornais, principalmente no que se refere às ocorrências violentas urbanas. Nessa cobertura, de modo geral, há uma ênfase no aumento da criminalidade e uma tendência em destacar a incapacidade do Estado em oferecer segurança pública de qualidade para a população. No entanto, nesse avanço da mídia escrita, observa-se também uma melhor cobertura em relação à violação dos direitos, que se deve a uma melhor qualificação de jornalistas nessa área. O tema dos direitos humanos também está mais presente na formação e capacitação de policiais. Bem como foi detectado a veiculação de matérias com maior destaque sobre segurança pública.
No entanto, essa representação constante da mídia escrita tem criado tensões na sociedade em relação à atuação policial. A população, especialmente a de classe baixa, também sofre seus estigmas, não confia mais na figura do policial, porque vêem na mídia demonstrações diárias de desrespeitos as leis que eles deveriam obedecer.Gerando conseqüências para corporação e estigmatizando o agente público que perde seu espaço na sociedade como garantidor da segurança dos cidadãos. Também perdem as populações mais carentes, pois são apontadas pela mídia como pólos de marginalização, fábricas de delinqüência.
A abordagem que a mídia utiliza sobre os casos de violência oferece ao público uma compreensão distorcida do fenômeno da violência. O fato de a imprensa propagandear o fenômeno da criminalidade praticado pelas pessoas pertencentes às camadas populares, contribui para reforçar a estigmatização das classes consideradas perigosas, e desta forma o pobre será sempre visto como suspeito. Além disso, o público em geral é influenciado a associar a violência com os grandes atos criminosos. Na realidade, a manifestação da violência não está somente interligada com o crime, como assaltos, atos de violência sexual, homicídios etc. E por assim serem mostradas a imprensa deixa de mostrar os fatores da estrutura sócio-econômica, enquanto fatores geradores ou incentivadores da criminalidade. Entre estes poderiam citar os desequilíbrios regionais que forçam a migração desordenada para os centros urbanos (problema da desintegração cultural e do menor abandonado); a má distribuição de renda, fator responsável tanto pela pobreza absoluta quanto pela proletarização das classes médias; aumento nas taxas de desemprego e subemprego, ausência ou precariedade de serviços públicos, escola, saúde educação etc.
“O dizer dos jornais não recria a violência: Ele é outra forma de violência, a violência simbólica, com poucos adjetivos, frases curtas, parágrafos de cinco, seis linhas e muitas, muitas conclusões. A violência de dizer para vender, de querer extrair do fundo do poço, as emoções que ninguém revela”.(GERALDES, 1998; 203-204)
Cada personagem na construção da notícia, tem sua parcela de culpabilidade, a mídia não é a vilã isolada. O jornalista policial, na maioria das vezes, sinaliza com o seu despreparo e falta da utilização de mecanismos investigativos para cuidar do seu texto. O policial dá subsídio para que o fato seja narrado de forma negativa quando age com violência, desrespeita seus páreas e rasga as leis que deveria obedecer e usar para proteger a população. O governo fabrica seus marginais, quando nega ao povo suas necessidades básicas. O jornalismo coloca os interesses do mercado acima da qualidade da informação. A notícia manipulada, o quarto poder ajudando a disseminar a violência!
Por: Leni Almeida