Por: Leni AlmeidaCaminho pela praia, molhando meus pés na espuma transparente da “ressaca” de inverno, a água fria me desperta dos meus muitos delírios que sempre me atacam em caminhadas matinais. Mas, sem surtir efeito, volto a delirar e imaginar o que eu poderia ser ou fazer além da linha acinzentada do horizonte. Mais uma onda me desperta, dou um pequeno pulo e a xingo, mas volto à atenção pra ela que com o seu spray salgado me desperta dos sonhos. Observo os movimentos de vai e vem e imagino o que ela vomitou e engoliu por milhares e milhares de anos. O que sua língua oceânica provou? Que delícias? Quais Horrores? Que sabores terá as outras terras?Novamente sou despertada, desta vez, uma dor aguda me invade, me petrifica, num impulso, faço-me pular num pé só, aperto meu dedão e sinto o sangue quente e vermelho me inundando a mão, chamo todos os palavrões existentes no dicionário chulês e sento-me na areia. Peste! Meu dedo tem um corte pequeno e perfeito, como se tivesse sido feito por um cirurgião plástico. Volto às ondas e deixo o ferimento ser lavado por aquelas águas, povoadas de plânctons que refletem a cor cinza do inverno e da minha dor.
Aí, o ferimento se apazigua com meu cérebro, então vou à busca do causador, pois sei que deve ter sido obra de algum banhista sem compromisso ecológico, um desinteressado pela segurança e bem estar do outro... Procuro por garrafas, latas de cerveja e esse tipo de coisa, nada encontro! Num olhar mais “cherlockeano” consigo identificar o meu “agressor”! Esta lá, onde as ondas lambem a praia, disfarçado, escondido, revelando só a sua parte afiada e leitosa. A casca de um molusco!
Ajoelho-me e o observo bem de perto, desgraçado me feriu! A primeira atitude é a de eliminá-lo, pois sei que irá ferir outras pessoas, cortar e cortar mais e mais com discrição, como vem fazendo há dias, meses, anos, séculos... Com um gesto felino, tento proteger minha raça da ação do mau feitor e o retiro da areia; parece-me tão pequeno, tão frágil, incapaz de causar dor ou algum dano, sinto carinho!
Sento na areia e olho mais uma vez para aquela conchinha de maçunim, pronta para arremessá-la ao mar na certeza que não machucará mais ninguém. Arremesso-a e vejo o seu mergulho olímpico, perfeito, posso senti-la caindo no fundo do mar, lenta, calma, sem pressa e levando consigo a glória de ter me ferido. Dou-me conta que fui boba, pois o mar irá devolvê-la depois... Deixa! Será em muitos dias ou anos, agora estamos salvos! Dou uma última olhada para a antiga habitação do meu “agressor” e me espanto, pois se descortina diante dos meus olhos ignorantes outras e outras... Dezenas, centenas, milhares! Pontos brancos discretamente semi-enterrados na areia, como farei? O que farei? Então descubro que nada posso fazer, pois cada conchinha se alinhava ao longo da praia, se agrupando, se unindo, formando um exercito! Percebi que apesar de pequenas e frágeis, tornaram-se gigantescas e fortes pois estavam muito próximas, numa combinação secular. Como pude ser tola ao imaginar que, ELIMINANDO uma estaria livre de sua presença incomoda, enquanto que as demais UNIDAS estavam lá, tornando-se ÚNICA, por séculos e tendo todo tempo do mundo para agir!
Resolvi sair dali, subir um pouco até a areia fofa e continuei a caminhar... Voltei aos meus delírios e pensei: Como seria o mundo, as classes sociais, as minorias, se pudessem se espelhar na força que tem uma simples concha de molusco?