Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
O que dizer para uma mãe, um pai, uma esposa, um filho, um irmão, um amigo que acabou de perder uma pessoa amada? Meus pêsames! Meus sentimentos! Seja forte! Foi a vontade de Deus! Chegou a hora! Estas são algumas frases triviais, que não condensam o que a pessoa necessita ouvir num momento de extremo sofrimento, mas quase sempre são utilizadas, apesar de não estarmos sentindo verdadeiramente aquilo, naquele momento. Apesar de estarmos com vontade de gritar, chorar e olhar nos olhos daquela pessoa que sofre e dizer: Foi injusto!!! Foi covardia!!! Ele não merecia!!! Ele será mais um esquecido!!!
Uma vez, olhei nos olhos de uma mãe, que tinha acabado de perder seu filho da mesma forma trágica. Um garoto recém ingressado no serviço de “cautela de Preso” ou “ressocializador”, pouco importa a denominação. Só lembro-me daqueles olhos, olhos perdidos, enevoados, tentei penetrar neles e fui barrada, pois a dor pertencia a ela, dor de mãe que perde sua cria, que busca no seu íntimo, no universo de sua existência uma explicação para não ter mais a sua criança. Mãe que não entende o porquê da inversão da natureza. Era muita dor, um oceano inteiro, um universo de desespero. Não pude prosseguir naquele olhar, pois todos os outros olhares naquele momento viraram mar, dor, revolta.
Sou covarde! Acovardei-me depois de Manoel e tranquei meu coração para a dor maior, quando vi meu amigo Calado imóvel,lilás, gelado. Ali não havia mais sorrisos, brincadeiras, gaiatices; tão peculiares a ele... Só havia silêncio e mais silêncio!!!
Hoje, torna a acontecer, mais um guerreiro tomba e perde para a violência, me acovardo mais, e mais e mais, pois sei que não terei coragem de ir ao seu velório, sei que lá estarão embaralhados numa imagem distorcida, homogeneizando plasmicamente Manoel, Calado e Vieira. Fundindo-se, transformando-se num só. Também estarão aqueles olhos de mãe, de oceanos de dor, de criança que não chora mais.
Às vezes, o melhor é não dizer nada, calar para consolar. Mas como consolar alguém que acabou de perder uma verdadeira parte de si mesmo, alguém que está incompleto? Nenhum ser humano, por mais que saiba que a morte é inevitável, está preparado para a perda definitiva e abrupta, a perda vedada pelo túmulo.
O que dizer para alguém que acabou de perder uma pessoa amada numa tragédia? As mesmas frases triviais? Ou as outras? Uma morte trágica traz em si a perplexidade, a indignação, à revolta. E, cada vez mais, está acontecendo entre nós. Somos permissivos, somos catatônicos diante do ocorrido, estamos impotentes! O que fazer? Como fazer? Que direção tomar? Qual será nossa atitude? Será que somos capazes de responder a tais questionamentos? Será que alguém terá coragem de mergulhar na dor dessas famílias e retornar ileso? É um universo muito grande, muito pesado e cheio de erros e enganos que custam VIDAS!
Ser Agente Penitenciário não é pendurar um molho de chaves na cintura... Então, o que será? Será morrer como Manoel Messias num resgate ridículo? Atocaiado como o Calado e o Vieira? Alguém tente nos responder, para que nos sabendo da importância de ser, de viver e de morrer por essa profissão, possamos falar pra mãe do Manoel Messias, do Calado e do Vieira. Pra que nos possamos ter o respeito e o temor do marginal, para que o os representantes do governo coloquem nossa profissão em destaque e se orgulhem dos profissionais que tem. Não queremos “oceanos” nos olhos de nossas mães e familiares. O que falta? Talvez nos saibamos, certamente a resposta está comigo, com você, conosco. Falta-nos coragem!
E não adiantará dizer que a morte não é um fim em si mesmo, mas uma continuidade, um estágio que tem que ser ultrapassado, enfim, é o prosseguimento da vida. Isto, somente o tempo mostrará e dirá se nossos companheiros guerreiros venceram ou não sua última batalha. Até lá, a dor profunda terá que ser regada com lágrimas e desespero, até a ferida cicatrizar, parar de doer.
Talvez não faça diferença, tamanha a dor, mas é possível dizer a todos que perderam, a cada pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, esposa, amigo, que há quem se solidarize com a perda. Que estaremos unidos, lutando por dignidade e respeito para que esta onda de violência desabite nossa profissão.
Sofrimento compartilhado é sofrimento que se transforma em FORÇA, LUTA e DETERMINAÇÃO.
Aos que sofrem, recebam o consolo de um abraço. Mesmo que seja um abraço a distância, um abraço covarde.
Uma vez, olhei nos olhos de uma mãe, que tinha acabado de perder seu filho da mesma forma trágica. Um garoto recém ingressado no serviço de “cautela de Preso” ou “ressocializador”, pouco importa a denominação. Só lembro-me daqueles olhos, olhos perdidos, enevoados, tentei penetrar neles e fui barrada, pois a dor pertencia a ela, dor de mãe que perde sua cria, que busca no seu íntimo, no universo de sua existência uma explicação para não ter mais a sua criança. Mãe que não entende o porquê da inversão da natureza. Era muita dor, um oceano inteiro, um universo de desespero. Não pude prosseguir naquele olhar, pois todos os outros olhares naquele momento viraram mar, dor, revolta.
Sou covarde! Acovardei-me depois de Manoel e tranquei meu coração para a dor maior, quando vi meu amigo Calado imóvel,lilás, gelado. Ali não havia mais sorrisos, brincadeiras, gaiatices; tão peculiares a ele... Só havia silêncio e mais silêncio!!!
Hoje, torna a acontecer, mais um guerreiro tomba e perde para a violência, me acovardo mais, e mais e mais, pois sei que não terei coragem de ir ao seu velório, sei que lá estarão embaralhados numa imagem distorcida, homogeneizando plasmicamente Manoel, Calado e Vieira. Fundindo-se, transformando-se num só. Também estarão aqueles olhos de mãe, de oceanos de dor, de criança que não chora mais.
Às vezes, o melhor é não dizer nada, calar para consolar. Mas como consolar alguém que acabou de perder uma verdadeira parte de si mesmo, alguém que está incompleto? Nenhum ser humano, por mais que saiba que a morte é inevitável, está preparado para a perda definitiva e abrupta, a perda vedada pelo túmulo.
O que dizer para alguém que acabou de perder uma pessoa amada numa tragédia? As mesmas frases triviais? Ou as outras? Uma morte trágica traz em si a perplexidade, a indignação, à revolta. E, cada vez mais, está acontecendo entre nós. Somos permissivos, somos catatônicos diante do ocorrido, estamos impotentes! O que fazer? Como fazer? Que direção tomar? Qual será nossa atitude? Será que somos capazes de responder a tais questionamentos? Será que alguém terá coragem de mergulhar na dor dessas famílias e retornar ileso? É um universo muito grande, muito pesado e cheio de erros e enganos que custam VIDAS!
Ser Agente Penitenciário não é pendurar um molho de chaves na cintura... Então, o que será? Será morrer como Manoel Messias num resgate ridículo? Atocaiado como o Calado e o Vieira? Alguém tente nos responder, para que nos sabendo da importância de ser, de viver e de morrer por essa profissão, possamos falar pra mãe do Manoel Messias, do Calado e do Vieira. Pra que nos possamos ter o respeito e o temor do marginal, para que o os representantes do governo coloquem nossa profissão em destaque e se orgulhem dos profissionais que tem. Não queremos “oceanos” nos olhos de nossas mães e familiares. O que falta? Talvez nos saibamos, certamente a resposta está comigo, com você, conosco. Falta-nos coragem!
E não adiantará dizer que a morte não é um fim em si mesmo, mas uma continuidade, um estágio que tem que ser ultrapassado, enfim, é o prosseguimento da vida. Isto, somente o tempo mostrará e dirá se nossos companheiros guerreiros venceram ou não sua última batalha. Até lá, a dor profunda terá que ser regada com lágrimas e desespero, até a ferida cicatrizar, parar de doer.
Talvez não faça diferença, tamanha a dor, mas é possível dizer a todos que perderam, a cada pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, esposa, amigo, que há quem se solidarize com a perda. Que estaremos unidos, lutando por dignidade e respeito para que esta onda de violência desabite nossa profissão.
Sofrimento compartilhado é sofrimento que se transforma em FORÇA, LUTA e DETERMINAÇÃO.
Aos que sofrem, recebam o consolo de um abraço. Mesmo que seja um abraço a distância, um abraço covarde.
Por: Leni Almeida